O presidente da ABVE, Adalberto Maluf, disse nesta quinta, 21/10, no Senado, que a indústria de transformação brasileira está numa encruzilhada – e o país tem de apostar decididamente na eletromobilidade, sob risco de se tornar obsoleta.

Em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT), Adalberto Maluf disse sentir-se “angustiado” com a defasagem de mais de uma década do parque produtivo brasileiro em relação aos principais mercados globais de eletromobilidade, como Europa, China, Estados Unidos e até América Latina.

Voltou a dizer que a eletromobilidade é o centro de uma “revolução mundial” na indústria de transformação, e o Brasil não pode ficar alheio a essa realidade.

O debate foi coordenado pelo presidente da CCT, senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL), com participação de Igor Calvet, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), do senador Jean Paul Prates (PT-RN) e do vice-presidente da Abravei (associação dos proprietários de veículos elétricos), Rodrigo Vieira Dias, entre outros.

ANGÚSTIA

Em sua exposição, o presidente da ABVE mostrou com números que o Brasil está marcando passo na corrida global pela eletromobilidade.

“Estou angustiado com a sobrevivência do parque produtivo brasileiro, que tem hoje em torno de 13 anos de defasagem em relação aos principais países do mundo no debate sobre eletromobilidade” – disse.

“Não estamos participando do debate internacional sobre o futuro da indústria no mundo. A Alemanha em 2019 tinha 3% de veículos elétricos vendidos; em 2020, chegou a 14%; e 2021, a 28%!”

“E o Brasil? O Brasil chegou a 1,4% no primeiro semestre de 2021, e a maioria não são veículos 100% elétricos ou híbridos plug-in”.

Lembrou que em março de 2020, a Bloomberg previa que o mercado global de VEs cairia 18% no ano passado.

“Na realidade, o que aconteceu? Os VEs subiram 43%! O mercado de VEs passou por uma transformação muito rápida”.

Acrescentou que os prognósticos mais  confiáveis indicam que em 2026 metade do mercado mundial de veículos será elétrica ou híbrida.

No entanto, esses mesmos prognósticos apontam que na América Latina, no período, os veículos elétricos terão apenas 6% do mercado.

“A Europa estará com 70% de VEs em 2035 e o Brasil com apenas 6%? Não faz sentido essa defasagem”.

PROBLEMAS

“No Brasil, terminaremos o ano de 2021 com 30 mil veículos eletrificados emplacados, a maioria híbridos elétricos. Mas esse total será em torno de 1,4% das vendas totais, enquanto o mundo estará em 25%”.

O presidente da ABVE afirmou que o parque produtivo brasileiro está em condições de responder positivamente ao desafio mundial da eletromobilidade, desde que tenha os incentivos governamentais adequados.

“Temos um monte de indústrias, nossa indústria ainda não é obsoleta, temos muitas iniciativas positivas ocorrendo no Brasil, mas falta uma articulação nacional”.

Citou como exemplo os veículos híbridos flex a etanol, já produzidos no Brasil pela Toyota.

“Eles talvez sejam a grande vocação nacional, no curto prazo. É uma tecnologia que podemos exportar para países como Índia, Colômbia, África do Sul”.

Observou, porém, que na década de 80 a indústria de transformação no Brasil respondia por 35% do PIB; hoje, responde por apenas 11%. E que em 2011 o país detinha 3,5% do PIB mundial em dólar, e hoje, somente 1,5%.

Citou alguns dos problemas que afetam o crescimento da eletromobilidade no Brasil. Exemplos:

1-As bicicletas elétricas no Brasil tem de pagar 35% de IPI.

2-Os veículos elétricos levíssimos, que poderiam ter um importante papel no transporte nas cidades e no apoio a prestadores de serviços de baixa renda, ainda pagam 20% de Imposto de Importação e 35% de IPI. “Temos um problema tributário a resolver”.

3-Um elétrico supercompacto como o Twizy, da Renault, que é um veículo emplacado, não pode entrar numa rodovia, nem mesmo para acessar um viaduto no tráfego urbano, sob risco de cometer uma irregularidade.

Adalberto Maluf apontou as oportunidades para a indústria brasileira, se o país aderir claramente à eletromobilidade.

“Teremos uma oportunidade de reindustrialização, o que beneficiará especialmente as pequenas empresas, que geram muitos empregos”.

“O Brasil tem todas as condições de se consolidar como um líder mundial em eletromobilidade”.

Concluiu:

“O veículo elétrico será o centro de um nova economia. As casas das pessoas serão mais conectadas e os veículos elétricos poderão dar mais flexibilidade para a rede elétrica. A geração distribuída de energia reduzirá a conta de eletricidade de todos os usuários, reduzirá a bandeira vermelha”.

“FANTÁSTICA”

Após a fala do presidente da ABVE, o senador Jean Paul Prates (PT-RN) destacou a “importância gigantesca” do debate na Comissão de Ciência e Tecnologia. “Foi uma audiência fantástica!”.

“A eletromobilidade parece um objeto estranho no Brasil, mas já é uma realidade no mundo. E também no Brasil. A BYD já fábrica veículos elétricos no Brasil. No Rio Grande do Norte também já existem fabricantes, às vezes artesanais. Isso está acontecendo por toda a parte”.

Informou também já estar em curso a reorganização da Frente Parlamentar pela Eletromobilidade no Congresso Nacional. E convidou o senador Rodrigo Cunha, presidente da CCT, a presidi-la.

“A Frente Nacional pela Eletromobilidade terá também a participação de empresas, entidade governamentais e de usuários. Estamos concluindo a sua configuração. Esta é uma grande notícia que trago aqui para todos” – disse o senador.