Muitos paises, onde antes havia uma prerrogativa ao automóvel, estão mudando suas posturas, incitando o transporte público de alta capacidade, inclusive com o uso do ônibus como um dos principais meios transportadores
06/04/09 - Antonio Ferro
Como modificar o conceito ônibus para que possa ser visto como um produto de qualidade e atrativo no ambiente urbano é um dos desafios para que as cidades se desenvolvam de modo sustentável e ordenado. O blog Revista Autobus conversou com Cláudio de Senna Frederico, engenheiro, consultor internacional e vice-presidente da ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos) sobre esta importante pauta, mas que ainda encontra muitas barreiras por parte das administrações públicas quando se fala em melhoria e implantação de sistemas troncalizados. Vender uma imagem positiva do ônibus urbano no momento em que ele apresenta um nível de desempenho e capacidade aquém do desejado. Como dar forma a isso? Cláudio de Senna revela que na medida em que a melhora generalizada demora demais, requer ação simultânea de centenas de agentes e sua implementação gradativa não é perceptível, restando como única saída os projetos de impacto de bom exemplo realizados em locais de grande visibilidade e prestígio e sem uma preocupação imediata de retorno imediato individual.
O termo “transporte popular” está intimamente associado ao veículo. Pode-se mudar entendimento?
Depende da competência das implementações da solução acima. Além disso, deve-se realizar e divulgar os projetos de aplicação de “ônibus de sonho”, tais como os de time de futebol, grupos musicais para shows, ônibus escritório de campo, etc. É claro que ônibus de massa urbano será sempre um produto “popular” em contrapartida a produtos de elite mas não necessariamente “pobres”. Cervejas são produtos “populares”, mas são símbolos de alegria e convivência alegre.
Ao optar pelo transporte individual, em detrimento ao coletivo, aumentamos ainda mais o conflito entre o ser humano e uma máquina em nossa sociedade. Vemos que muitos paises, onde antes havia uma prerrogativa ao automóvel, estão mudando suas posturas, incitando o transporte público de alta capacidade, inclusive com o uso do ônibus como um dos principais meios transportadores.
Acredita que no Brasil essa visão venha a se tornar um imperativo?
Colocando a coisa de forma dramática, não haverá solução urbana utilizando o transporte coletivo se não houver a recuperação do modal ônibus. A maior parte do transporte público terá sempre que ser por veículos menores que utilizem a infra-estrutura existente e tragam capilaridade ao sistema. O imaginário recente de que a solução está exclusivamente nos trilhos de alta capacidade é não só impossível, como não existe em nenhum local do mundo.
O Brasil foi o criador do conceito BRT, sendo Curitiba a primeira cidade a implantá-lo. Mas observamos que a criação brasileira não representou apelo significativo para a mobilidade urbana e na melhora da qualidade ambiental.
A que o sr. credita a não opção pelo transporte rápido feito por ônibus, sendo que nossa idéia é um espelho para outras localidades mundiais?
A maior dificuldade é superar a disputa pelo mesmo espaço viário com o automóvel. Aonde anda ônibus tecnicamente é possível o trânsito do automóvel que tem maior poder político e exige todo o espaço para ele. Os primeiros casos de bom exemplo teriam que minimizar a redução de áreas para automóvel, ou seja, teriam que criar “mais” espaço viário exclusivo (da mesma forma que os trilhos), sendo portanto mais caros.
A implantação de corredores troncais sempre é questionada negativamente. Isso é um fato de nossa cultura. Esse modo de entender de nossa sociedade contribui para que os governantes simplesmente ignorem um benefício urbanístico?
Novamente, por deficiência dos exemplos existentes, procura-se “baratear” as soluções de ônibus para que sejam “viáveis”, reduzindo sua qualidade, inclusive urbanística, o que traz um mal exemplo que é utilizado para inviabilizar a solução.
Transporte urbano é uma questão técnica ou política?
Essencialmente política, mas formando uma cadeia virtuosa ou viciosa com a técnica. A técnica precisa apresentar alternativas mais seguras de aceitação pelo público e viáveis para que a política tenha condição de intermediar o apoio necessário que deve depois se materializar e operar de forma a demonstrar o seu sucesso trazendo resultados políticos. É o clássico me empurra que eu te puxo, mas é preciso primeiro uma certa visão política para garantir espaço que, então, não pode ser desperdiçado.
Qual o futuro do ônibus urbano? Ele poderá cumprir um papel único na dinâmica das cidades?
Qual será dependerá da sabedoria da aplicação prática do que já falamos, mas sem dúvida nenhuma não há nenhum motivo pelo qual o ônibus urbano se limite ao papel integrador. Aliás, aonde isso já ocorre no Brasil? Paris, que é muito citada para esse tipo de formato a partir de seu crescimento, não proporcionou a estrutura necessária para atender a demanda metropolitana e hoje não passa de 30% de viagens em transporte público. Depende, portanto, do desenho que a cidade assume e sua combinação adequada com seus meios de mobilidade.
Leia também O primeiro BRT carioca e
Decisão de investir em transportes coletivos e desincentivar o uso de automóveis tem êxito em Lyon.
|



