Pietro Erber, diretor-presidente da ABVE, analisa estudo anual, publicado pela OCDE, sobre as perspectivas energéticas mundiais
04/02/2010
A OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que agrega os países mais desenvolvidos do planeta, acaba de publicar seu estudo anual sobre as perspectivas energéticas mundiais, até 2030.
O estudo apresenta dois cenários: o Cenário de Referência representa a evolução do quadro energético mundial em bases tradicionais ou “business as usual” – BAU, no qual a concentração de gases de efeito estufa alcançaria mais de 1000 ppm de CO2 equivalente, elevando a temperatura média global em cerca de 6º C, enquanto o outro, denominado Cenário 450, indica como esse quadro deveria evoluir para que a concentração de CO2 fique limitada a 450 ppm, o que permitiria que o aquecimento global não ultrapassasse 2o C.
Os países foram agrupados da seguinte forma:
No Cenário de Referência a demanda de energia primária aumentaria à taxa de 1,5% ao ano, de 2007 a 2030, alcançando naquele ano 16.800 Mtep (milhões de toneladas equivalentes de petróleo) e envolvendo investimentos de US$ 26 trilhões, ao longo dos próximos 20 anos. Já no Cenário 450 a taxa média de crescimento da demanda seria de 0,8% ao ano, alcançando 14.400 Mtep. Os investimentos adicionais para evitar o Cenário de Referência e realizar o Cenário 450 alcançariam US$ 10,5 trilhões, até 2030. 45% desse total seria destinado à modificação dos sistemas de transportes, inclusive a modificação das frotas de veículos, com a difusão do emprego de veículos acionados eletricamente.
A partir de 2013, no Cenário 450, os países do primeiro grupo seriam sujeitos a limitações de emissões de modo a viabilizar o pico de emissões em 2020. A partir desse ano,os países do segundo grupo também respeitariam limitações. O preço da tonelada de CO2 emitido pelo setor elétrico e pela indústria seria de US$ 50.
A implementação do Cenário 450 estará baseada em diversos fatores, dentre os quais se destaca o aumento da eficiência na oferta e na utilização da energia, a substituição parcial de carvão mineral por gás natural e energia nuclear, aumento do uso de fontes renováveis e ampla modificação nos sistemas de transportes, com maior emprego da tração elétrica.
A redução do consumo de energia proporcionaria reduções das emissões de CO2 de 3,8 Gt em 2020 e 13,8 Gt em 2030, em relação ao Cenário de Referência. Estas totalizavam 28,8 Gt em 2007. Estes resultados seriam devidos aos seguintes fatores:
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Contribuição dos Fatores de Redução das Emissões - % | ||
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2020 |
2030 |
Eficiência |
65 |
57 |
Renováveis & Biocombustíveis |
19 |
23 |
Nuclear |
13 |
10 |
Captura e Sequestro de Carbono |
3 |
10 |
Destaca-se a notável contribuição do aumento da eficiência para que se consiga realizar o cenário mais favorável. Nesse sentido, o emprego do acionamento elétrico nos transportes é de importância fundamental, não apenas no sentido de reduzir o consumo de combustíveis, mas também de poder substituir fontes primárias poluentes, como o carvão, por energias renováveis e nuclear, com as quais gera-se energia elétrica.
No tocante aos automóveis e outros veículos sobre pneus, mesmo a utilização de veículos híbridos, que ainda utilizam combustíveis, a redução de consumo será apreciável. O estudo da OCDE prevê que, em 2020, 50 % das vendas de veículos de passageiros será de veículos elétricos. Os híbridos representariam cerca de um terço das vendas. Em 2030 os elétricos constituiriam 60% das vendas totais mundiais, das quais 29% seriam constituídas por elétricos a bateria e plug-ins. A participação dos híbridos puros seria de 30%. Note-se que as emissões médias diminuiriam de cerca de 200 g/km rodado em 2007 para 125 g/km em 2020 e para perto de 90 g/km em 2030.
Considerando que há notável carência de energias de uso eficiente no mundo, a tarefa de alcançar o Cenário 450 constitui um desafio excepcional, que certamente precisa começar a ser enfrentado desde já. O estudo ainda estima custos adicionais de US$ 500 bilhões por ano de atrazo na implementação dessa tarefa. Trata-se de um esforço excepcional, pelos volumes de recursos financeiros e tecnológicos envolvidos anualmente. Entretanto, os benefícios decorrentes das reduções de consumo de combustíveis e da melhoria das condições ambientais, com reflexos positivos na saúde das populações compensarão diretamente, pelo menos parcialmente os gastos adicionais necessários para que o Cenário 450 se verifique.
Pietro Erber é Diretor do INEE e Diretor-presidente da ABVE
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