Pode a eletrificação veicular ser uma ameaça ao etanol brasileiro?
17/05/2010
Recente estudo do IPEA ( "Etanol e veículos elétricos: via de mão única ou dupla?", Pompermeyer, F. M, em agencia.ipea.gov.br ) defende a tese de que o carro elétrico a bateria no Brasil seria uma ameaça ao etanol. Simplificando, o artigo considera que este acionamento é uma solução das economias avançadas para reduzir as emissões de CO2 do transporte individual e que o Brasil, com o etanol, já tem uma solução apropriada que seria ameaçada pela eletrificação veicular.
Sugiro que os interessados no tema de veículos elétricos leiam o bem escrito e fundamentado artigo que, para fazer a comparação, dá uma visão abrangente sobre os efeitos de cada uma das soluções de acionamento observando os efeitos globais na matriz energética brasileira.
O texto se concentra na competição direta etanol x carros elétricos a bateria (CEB), onde, obviamente, o aumento do número de veículos elétricos reduzirá o consumo de etanol. Por outro lado, há os carros elétricos híbridos (CEH), ou seja, carros elétricos cuja energia elétrica é gerada a bordo. Terão um papel importante e, devemos trabalhar para que seus motores de combustão interna usem o etanol. Umas poucas contas mostram que este seria o carro "mais limpo" do mundo pela elevada eficiência energética e baixa emissão.
Os veículos elétricos - independente do tipo - vão penetrar no mercado em médio e longo prazo, pela simples razão de que são muito mais eficientes que os acionamentos exclusivamente por um motor de combustão interna e todos os fatores indicam que com inovações e ganhos de escala serão mais baratos que os convencionais. Não há dúvida que a entrada dos VEs trará novos ajustes no mercado de veículos e de combustíveis. A nova realidade precisa ser analisada de forma adequada no Brasil, exatamente para evitar falsas colocações estratégicas como montar uma política que se oponha ao uso de carros elétricos.
Mais importante, será buscar novos mercados para o etanol automotivo. Há anos, por exemplo, se busca uma forma para substituir o diesel pelo etanol. A visão tradicional tem levado ao caminho de ajustar os motores a diesel convencionais e/ou usar aditivos especiais ao etanol.
Ora, os elevados torques possíveis com motores elétricos (usados, por exemplo nas locomotivas diesel-elétricas e nos supercaminhões de transporte de minério) são compatíveis com as necessidades de altos torques necessárias aos caminhões a diesel. Por outro lado, é perfeitamente possível usar motores a etanol (ciclo Otto) para acionar os geradores, porque: 1) no ciclo híbrido as potências dos motores de combustão interna são menores (os picos de potência são atendidos em parte pela energia das baterias) e 2) é possível usar mais de um gerador "em paralelo" para atender a necessidade do caminhão.
Um sistema híbrido a etanol para substituir o diesel é uma solução que só pode surgir no Brasil e curiosamente teria como freguês inicial o setor sucroalcoleiro que para transportar 600 milhões de toneladas de cana entre o campo e as usinas vai demandar uns 2 bilhões de litros de diesel.
Autor: Jayme Buarque de Hollanda, Presidente do Conselho Diretor da ABVE e Diretor Geral do INEE
|









