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O blog infobus.blog.uol.com.br entrevistou Ieda Maria de Oliveira, gerente comercial da Eletra, empresa brasileira que desenvolve a tecnologia híbrida para ônibus urbanos
01/06/08 - Antonio Ferro

O programa de ônibus híbridos no Brasil ainda não se expandiu, em mais de 5 anos de desenvolvimento, ficando restrito a São Paulo e SBC. Exemplos internacionais nos mostram muitos desenvolvimentos de trações híbridas na Europa (Scania, MAN, Mercedes, Solaris, Phileas) e nos EUA, onde a cultura ao automóvel é muito grande, sendo considerado o maior programa de ônibus híbridos no mundo. A viabilidade de um projeto (no caso, a diminuição das emissões poluentes) só será possível se o mesmo estiver em congruência com as necessidades de um setor e do ambiente urbano. Falta isso em nosso país?

O mercado de ônibus no Brasil é dominado por grandes montadoras internacionais. É fácil imaginar que estas empresas têm em seus planos de desenvolvimento uma seqüência lógica de aplicação das novas tecnologias. Um país de terceiro mundo como o Brasil não será alvo da aplicação pioneira para novas tecnologias. Todos os investimentos em tecnologia serão feitos e aplicados inicialmente no primeiro mundo. É uma questão de planejamento do negócio e países como o Brasil aceitam esta prática que nos coloca no "fim da fila". As grandes montadoras vão investir em tecnologia de ponta nos países onde os caminhos estão abertos e o mercado pode absorver os custos dos investimentos. No Brasil isto não acontece.

Desta forma o desenvolvimento de vanguarda tecnológica para o setor automotivo fica por conta de iniciativas isoladas como o caso da Eletra com os ônibus híbridos.

Este pioneirismo tecnológico é muito valorizado em outros países e os órgãos governamentais tem papel fundamental para acelerar a viabilidade dos produtos com esta característica, até porque é de interesse do país deter determinadas tecnologias. No caso dos EUA, a cidade de Nova York em 2003 encomendou 100 ônibus para "experimentar" a tecnologia, pois sabia que esta é melhor maneira de desenvolver um produto: comprar uma quantidade suficiente para alavancar a empresa e aprimorar o desenvolvimento tecnológico.

O que o Brasil faz nestes casos para o setor automotivo? Nada. Deixa as empresas a mercê de uma concorrência desequilibrada, pois se ainda não existe volume de vendas e os preços são elevados, a entrada no mercado fica muito mais difícil e os custos com melhorias no projeto muito mais elevados. Para o empresário que exerce este pioneirismo os custos são altíssimos e é preciso muita "vontade" para não desistir no caminho.

Se o Brasil for depender de uma ação do setor automotivo na sua representação predominante para a adoção de tecnologias de vanguarda pode ter certeza que nos estaremos no "fim da fila".

Ônibus elétrico híbrido - Eletra

Há casos do transporte coletivo brasileiro em que é referência externa, como o exemplo de Curitiba. São Paulo modificou e apostou muito em seu sistema de ônibus urbano nos últimos anos. Mas essas duas cidades e outras que podemos citar que se transformaram em indicações (algumas da América Latina) não se movimentaram para alterar a lógica da matriz energética em seus ônibus, que é o diesel, promovendo o uso de alternativas em trações. O que falta nos setores governamentais para o fomento do uso desses novos conceitos em transporte? Sem regras claras, o setor privado também não será capaz de apresentar inovações nesse sentido, correto?

Curitiba é um cartão postal para sistemas de transporte urbano, porém foi feito muito pouco quando a tecnologias limpa. Pode ver que não existe nenhuma iniciativa de transporte com baixa emissão, pelo contrário, criaram-se corredores com ônibus de alta capacidade que são verdadeiros corredores de fumaça e existem ações no ministério público questionando este problema. Outros sistemas como o Transmilenio em Bogotá também enfrentam este problema. Faltou o componente meio ambiente no planejamento do transporte.

Os setores governamentais ainda não levam em conta o custo da emissão, por isto não existem exigências quando a utilização de ônibus com tecnologias limpas. Em São Paulo algumas iniciativas da Faculdade de Medicina da USP, na pessoa do professor Paulo Saldiva, buscam mostrar com dados estatísticos qual é o gasto com saúde provocado pela qualidade do ar. Os governos não se preocupam em investir no transporte limpo, mas como conseqüência gastam muito mais com saúde em virtude de doenças provocadas ou agravadas pela poluição.

O setor privado tem condições de apresentar inovações, o que falta é consciência ambiental e econômica para buscar a viabilização destas inovações.

O futuro do sistema híbrido está em utilizar a combinação etanol/eletricidade? Seria essa uma técnica ao alcance de todos ou o hidrogênio ainda se mantêm como o combustível ideal para o amanhã? O futuro do ônibus híbrido brasileiro está garantido?

A tecnologia híbrida permite harmonizar várias matrizes energéticas, entre elas o hidrogênio. O ônibus híbrido depende da geração de energia a bordo, que pode ser um grupo motor-gerador (diesel, gás, álcool, biodiesel, etc), uma turbina (diesel, álcool, gás, etc) ou uma célula de hidrogênio.

A importância da tecnologia de transporte elétrico híbrida é que a geração desta energia pode vir de várias fontes com a vantagem de que com a utilização do armazenamento em banco de baterias ou ultracapacitores, permite utilizar grupos menores para geração de energia, inclusive a célula de hidrogênio que pode ser dimensionada pela metade o que, para este projeto específico, é uma enorme vantagem pois os custo são amplamente reduzidos e os riscos também.

O futuro do ônibus híbrido brasileiro está garantido, pois a Eletra, com muita estratégia e muito trabalho, está fincando sua bandeira enquanto a fila não anda.

A Eletra tem acompanhado a operação dos ônibus híbridos em São Paulo? Quais são os resultados da eficiência em seu uso?

Os resultados são similares e até melhores do que outros países vêm encontrando na questão de desempenho e consumo para seus projetos de híbridos. Poucos têm consciência de que um ônibus que opera comercialmente nas condições extremas do transporte urbano de São Paulo pode operar em qualquer lugar do mundo e os nossos ônibus híbridos operam nestas condições sem nenhum privilégio. Nós sofremos muito é com as comparações absurdas que o mercado faz entre o consumo de um ônibus elétrico e um diesel, pois comparam o pior ônibus diesel (motor dianteiro, caixa manual, sem ar condicionado, piso alto, etc) com o melhor ônibus híbrido (ar condicionado e piso baixo).
Ônibus elétrico híbrido - Eletra

Quais outras novidades a Eletra está desenvolvendo e o que pode por em prática ainda este ano?

Estamos iniciando testes com sistemas de tração para motores de corrente alternada, cujo inversor foi projetado dentro da Eletra. Isto aumenta o leque de produtos com tecnologia 100% nacional para veículos com tração elétrica. Também estamos desenvolvendo o projeto para fabricação de uma van elétrica.

Sobre o tema leia também: 1.700 ônibus elétricos híbridos em Nova York,
Ônibus Elétricos em Nova York,
Adoção de ônibus elétricos ajudaria a reduzir os níveis de poluição.

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