Como um brasileiro sobrevive à crise de energia nos Estados Unidos
"Acredito que a maioria das pessoas deve concordar, depois de ler o que escrevi, que o veículo elétrico é um excelente substituto para o automóvel convencional no uso urbano onde seja necessário um deslocamento diário de até 40 km"
15/06/08 -Alexandre Bueno [1] para o site da ABVE
A tão propalada crise energética chegou com força total. Os aumentos diários do preço do barril do petróleo já estão afetando os preços dos alimentos em todo mundo. No dia 06 deste mês, sexta-feira, o barril ultrapassou a marca dos U$138. Com isto, a gasolina atingiu um novo recorde de R$ 1,78 por litro em alguns postos aqui de Miami na Flórida.
Para os leitores brasileiros isto pode parecer sem importância mas, quando lembramos que o preço era de pouco mais de R$ 0,43 há alguns anos, nos damos conta do impacto destes aumentos por aqui. Especialistas já falam que o barril pode subir para U$ 150 no dia 4 de julho próximo e que romperia a barreira dos U$200 no final deste ano.
Novos hábitos
Vejo as pessoas mudarem seus hábitos de transporte para refletir a nova realidade. As revendas de carros estão com seus estoques completamente cheios de camionetes e pickups novas e usadas. As grandes montadoras americanas tem anunciado demissões em massa em suas plantas especializadas nestes tipos de veículos chamados de SUV (Sport Utility Vehicle) por aqui.
Uma vez ouvi de um participante durante o VE2005 - 3° Seminário e Exposição de Veículos Elétricos (São Paulo, SP, 17 e 18 maio de 2005) que o petróleo é um material muito nobre para ser queimado dentro do motor de um veículo. Concordo plenamente com a assertiva. Dependemos do petróleo para muitas outras coisas e desperdiçá-lo desta maneira é um delito injustificável. O que seria de nossas vidas sem os plásticos derivados dele?
Felizmente um pequeno grupo de apaixonados tem mantido ativa a tecnologia que pode ser a solução para esta crise. Apesar de todos os ataques que temos sofrido por parte das grandes corporações petroleiras e das montadoras que auferem lucros inimagináveis com a venda de peças de reposição (ver Who Killed The Electric Car? - Sony) nós, os amantes dos veículos elétricos, seguimos adiante defendendo o que pensamos ser a tecnologia mais adequada para o transporte urbano.
Conversão de um triciclo militar para elétrico
Uma das razões que me levaram a aceitar uma proposta de trabalho em Miami em 2006 foi a possibilidade de poder seguir sonhando com o dia em que poderia usar meu próprio veículo elétrico em meu deslocamento diário para o trabalho. No Brasil as barreiras eram tão grandes que muitas vezes pensei em desistir do meu sonho. Depois que terminei o mestrado em engenharia automotiva em 2004 pude realizar parcialmente meu sonho quando converti um velho triciclo militar à tração elétrica[2].
Durante o processo descobri que a vida de um apaixonado por veículos elétricos no Brasil não é nada fácil. A tarefa de obter os componentes necessários para construir um VE no Brasil é árdua para dizer o mínimo. O total desinteresse dos fornecedores locais e os altos impostos cobrados pelo governo para a importação dos componentes são as causas mais comuns da nossa frustração.
Nos EUA comprar componentes para veículos elétricos é tão fácil quanto pedir uma pizza. Pode-se pesquisar e comprar pela internet e você recebe em sua casa em dois ou três dias muitas vezes sem necessidade de pagar imposto algum (caso a sede do vendedor fique em um estado diferente do seu).
Depois de construído, tentar homologar/documentar um VE artesanal é outra tarefa descomunal devido à já conhecida burocracia brasileira (Veja informações sobre conversão e fabricação de veículos elétricos).
Depois de enfrentar todos estes desafios resolvi criar o Grupo de Discussão sobre VEs no Google, com a idéia de compartilhar informações entre os entusiastas para tentar tornar mais fácil a vida daqueles que desejam fazer seus próprios VEs. Hoje somos mais de 270 membros e crescemos todos os dias.
Fui às compras e adquiri minha scooter elétrica
Tenho dedicado meu tempo livre para pesquisar as alternativas disponíveis aqui nos EUA mas, apesar das facilidades encontradas, não existem muitos VEs sendo oferecidos para o consumidor final. Muitas empresas fabricantes de VEs abrem e fecham suas portas tão rápido que não chegam nem a responder os e-mails enviados para obter mais informações sobre seus produtos.
Em 2007 a empresa EVT America, já conhecida por suas scooters elétricas fabricadas na Ásia, começou a oferecer uma versão própria de uma scooter elétrica de boa performance. A Z-20 possui um motor elétrico sem escovas de 2500 W com sistema elétrico de 60 Volts. O preço de lançamento da Z-20 foi de U$ 2.000 e preço de lista atual é U$ 2.400 (R$3.912) mais impostos. Comprei uma para ver se atendia minhas necessidades de transporte ou, pelo menos, parte delas.
Acredito que o acabamento poderia ser melhorado mas como conheço as condições em que este tipo de produto é manufaturado na China resolvi me focar no que realmente interessa: a tração elétrica. A EVT teve muitos problemas com os controladores e carregadores das primeiras Z-20 (a minha tem o número de série 007) mas como vivo em Miami, cidade sede da EVT, foi muito fácil corrigir os problemas. Desde que a scooter foi acertada pela EVT já percorri mais de 500 km sem incidentes. A performance é bem razoável. A velocidade máxima real, medida com um GPS, é de 64 km/h e a autonomia real estimada de 48 km.
Carregar as baterias não é difícil, basta plugar o carregador na tomada existente em frente da casa e esperar de 2 à 5 horas dependendo do nível de descarga das mesmas. Creio que a tarefa é mais difícil para quem vive em apartamento sem uma garagem já que pode não haver disponibilidade de uma tomada elétrica de 120 Volts. Aqui na Flórida não é comum, mas sei que na Califórnia pode-se encontrar estacionamentos reservados para VEs que contam com uma tomada elétrica. Com sorte, se o patrão permitir, pode-se recarregar as baterias durante aquelas mais de 8 horas em que o veículo fica parado no estacionamento da empresa. Enfim este processo custa somente alguns centavos por dia.
Para carregar as baterias da Z-20 depois de um dia de uso, ou 21 km no meu caso, gasto 1,22 kWh (17,2 km/kWh). Para obter este valor usei um equipamento chamado Kill-A-Watt que mede a quantidade de energia consumida por um determinado equipamento, no caso o carregador da Z-20. O preço do kWh por aqui é de U$0,125 o que nos leva a cerca de 15 centavos de dólar ou R$ 0,25 por dia ou R$ 0,01 por km rodado.
Comparando os dados da scooter com o que obtenho com meu carro convencional a gasolina podemos ver que a scooter é muitas vezes mais economica. O meu carro, operando nas mesmas condições, me dá cerca de 8,5 km/l. Com a gasolina a U$4,13 o galão (ou U$1,09/litro) os mesmos 21 km percorridos diariamente me custam R$4,39, ou seja, 17,5 vezes mais do que gasta a scooter! Estes números tendem a ficar cada dia mais favoráveis ao uso da scooter à medida em que o preço da gasolina aumenta nas bombas.
Com as chuvas, só me restou comprar outro VE
Tudo ia de vento em popa até que a temporada de chuvas começou aqui em Miami. A partir deste momento comecei a prestar mais atenção nos outros modelos de VE disponíves, aqueles que oferecem uma cabine para proteger-se da chuva e de outras intempéries. Os automóveis elétricos de razoável performance ainda não estão disponíveis no mercado americano. À medida em que escrevo estas linhas, os primeiros Teslas estão saindo da fábrica para os clientes. Obviamente que não quero e nem posso pagar U$ 100.000 por um VE, portanto o Tesla vai ter que esperar.
Uma outra categoria de VE disponível aqui nos EUA são os NEV. Os NEV (Neighborhood Electric Vehicle) são basicamente uma evolução dos carros de golf que ganharam mais equipamentos para poder trafegar nas ruas. O grande problema com estes veículos, também chamados LSV (Low Speed Vehicles), é que eles somente podem trafegar em ruas onde o limite máximo de velocidade é de 35 mph ou 56 km/h. Isto se deve ao fato de que os NEV não cumprem os requisitos mínimos em relação à resistência a colisões (legislação incentivada pelas grandes montadoras para vender mais SUVs). A maioria das ruas nas grandes cidade é de 40 ou 45 mph, ou seja, os NEV estão proibidos de trafegar por elas.
Como as leis americanas não impõe limites às motocicletas e estas podem possuir até 3 rodas, alguns fabricantes de VEs decidiram oferecer pequenos veículos de 3 rodas com uma carroceria e que podem ser operados em quaisquer ruas com exceção das rodovias onde a velocidade mínima é de 40 mph (64 km/h). É exatamente neste nicho de mercado que entrou a ZAP. Esta empresa oferece o modelo Xebra que é um veículo elétrico de 3 rodas fabricado na China. A performance é muito similar à da scooter da EVT com a diferença de que o Xebra possue uma cabine fechada. Duas opções estão disponíveis: o Xebra sedan com 4 portas, carroceria de fibra de vidro e lugar para 4 pessoas (eu diria 2 adultos e duas crianças) e o Xebra PK estilo pickup com carroceria de aço e lugar para dois adultos. O Xebra PK tem preço de lista de U$ 12.500 (R$ 20.375) mais impostos.
Encontrei um Xebra PK usado por U$ 8.000 em um concessionário da Zap em West Palm Beach que fica cerca de uma hora de carro aqui de Miami. É um modelo com a direção no lado direito e que foi usado em um programa piloto da UPS (empresa de entrega de encomendas aqui nos EUA) em dezembro do ano passado na Califórnia.
O Xebra PK, apesar de ter um rendimento semelhante ao da scooter Z-20 em termos de velocidade e autonomia, consome mais energia do que esta devido ao peso de sua carroceria e chassi. Para percorrer os mesmos 21 km diários o gasto fica em R$0,52, ou seja, o dobro do valor gasto pela scooter. Ainda assim o Xebra PK é 8.4 vezes mais econômico do que o carro convencional que custa R$ 4,39 por dia.
O Xebra PK tem autonomia de 25 milhas ou 40 km e velocidade máxima real de 38 mph ou 61 km/h. A operação de recarregar as baterias é ainda mais fácil pois o Xebra tem um carregador embarcado. O motor tem 5 kW de potência e as baterias tem capacidade de armazenar 4.75 kWh de energia, ou seja, uma carga completa do Xebra aqui custa em torno de R$1,00. Existe uma versão equipada com um painel solar de 150 Watts que pode extender a autonomia em algo como 8 km por dia ou fornecer uma carga completa em 5 dias.
Outra grande vantagem que os que residem nos EUA tem é a facilidade de comprar e registrar os veículos por aqui. O governo não se importa se a tração é elétrica ou à combustão e a documentação sai bem rápido. O imposto equivalente ao IPVA custa cerca de U$ 50 (R$ 80) para a maioria dos carros e uma pequena fração disto para as motocicletas. Os incentivos para elétricos e híbridos já não existem por conta do lobby fortíssimo aplicado pelas grandes montadoras, mas creio que este programa deve ser retomado logo. A fila de espera por um Toyota Prius híbrido já é de três meses.
Tenho usado os dois veículos elétricos (a Z-20 e o Xebra PK) todos os dias no meu trajeto diário até o escritório onde trabalho. Em dias onde a previsão do tempo indica 30% ou mais de probabilidade de chuvas opto pelo Xebra e nos dias de sol vou com a Z-20.
VE: muito adequado para uso urbano
Acredito que a maioria das pessoas deve concordar, depois de ler o que escrevi acima, que o veículo elétrico é um excelente substituto para o automóvel convencional no uso urbano onde seja necessário um deslocamento diário de até 40 km. Além de mais econômico, o VE polui muito pouco e suas baterias são 99% recicláveis diminuindo assim o impacto que provocamos no meio-ambiente. Até mesmo nos EUA, onde a maior parte da energia gerada provém das termelétricas que usam carvão como combustível, é possível minimizar a poluição dos automóveis com a adoção dos elétricos já que a emissão dos gases pode ser melhor controlada nas chaminés de algumas poucas usinas do que nos escapamentos de milhões de carros.
Moral da história?
Caro amante ou entusiasta de veículos elétricos: tire seus projetos da gaveta e os coloque em prática hoje mesmo. Nunca existiu uma melhor hora para trabalhar com a tecnologia dos veículos elétricos do que agora. O mundo precisa do esforço de cada um de nós para vencer a crise energética e a degradação do meio-ambiente. Faça a sua parte. Faça já!
Nota: como referência para este artigo foi usada a cotação do dólar comercial do dia 09/06/2008: R$ 1,63/dólar americano.
[1]Alexandre Bueno, engenheiro com mestrado em engenharia automotiva (2004), reside e trabalha em Miami, Florida, Estados Unidos, desde 2006 (buenalexandre@gmail.com).
[2]Acesse informações sobre o triciclo militar convertido para elétrico:
"Acredito que a maioria das pessoas deve concordar, depois de ler o que escrevi, que o veículo elétrico é um excelente substituto para o automóvel convencional no uso urbano onde seja necessário um deslocamento diário de até 40 km"
15/06/08 -Alexandre Bueno [1] para o site da ABVE
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Para os leitores brasileiros isto pode parecer sem importância mas, quando lembramos que o preço era de pouco mais de R$ 0,43 há alguns anos, nos damos conta do impacto destes aumentos por aqui. Especialistas já falam que o barril pode subir para U$ 150 no dia 4 de julho próximo e que romperia a barreira dos U$200 no final deste ano.
Novos hábitos
Vejo as pessoas mudarem seus hábitos de transporte para refletir a nova realidade. As revendas de carros estão com seus estoques completamente cheios de camionetes e pickups novas e usadas. As grandes montadoras americanas tem anunciado demissões em massa em suas plantas especializadas nestes tipos de veículos chamados de SUV (Sport Utility Vehicle) por aqui.
Uma vez ouvi de um participante durante o VE2005 - 3° Seminário e Exposição de Veículos Elétricos (São Paulo, SP, 17 e 18 maio de 2005) que o petróleo é um material muito nobre para ser queimado dentro do motor de um veículo. Concordo plenamente com a assertiva. Dependemos do petróleo para muitas outras coisas e desperdiçá-lo desta maneira é um delito injustificável. O que seria de nossas vidas sem os plásticos derivados dele?
Felizmente um pequeno grupo de apaixonados tem mantido ativa a tecnologia que pode ser a solução para esta crise. Apesar de todos os ataques que temos sofrido por parte das grandes corporações petroleiras e das montadoras que auferem lucros inimagináveis com a venda de peças de reposição (ver Who Killed The Electric Car? - Sony) nós, os amantes dos veículos elétricos, seguimos adiante defendendo o que pensamos ser a tecnologia mais adequada para o transporte urbano.
Conversão de um triciclo militar para elétrico
Uma das razões que me levaram a aceitar uma proposta de trabalho em Miami em 2006 foi a possibilidade de poder seguir sonhando com o dia em que poderia usar meu próprio veículo elétrico em meu deslocamento diário para o trabalho. No Brasil as barreiras eram tão grandes que muitas vezes pensei em desistir do meu sonho. Depois que terminei o mestrado em engenharia automotiva em 2004 pude realizar parcialmente meu sonho quando converti um velho triciclo militar à tração elétrica[2].
Nos EUA comprar componentes para veículos elétricos é tão fácil quanto pedir uma pizza. Pode-se pesquisar e comprar pela internet e você recebe em sua casa em dois ou três dias muitas vezes sem necessidade de pagar imposto algum (caso a sede do vendedor fique em um estado diferente do seu).
Depois de construído, tentar homologar/documentar um VE artesanal é outra tarefa descomunal devido à já conhecida burocracia brasileira (Veja informações sobre conversão e fabricação de veículos elétricos).
Depois de enfrentar todos estes desafios resolvi criar o Grupo de Discussão sobre VEs no Google, com a idéia de compartilhar informações entre os entusiastas para tentar tornar mais fácil a vida daqueles que desejam fazer seus próprios VEs. Hoje somos mais de 270 membros e crescemos todos os dias.
Fui às compras e adquiri minha scooter elétrica
Tenho dedicado meu tempo livre para pesquisar as alternativas disponíveis aqui nos EUA mas, apesar das facilidades encontradas, não existem muitos VEs sendo oferecidos para o consumidor final. Muitas empresas fabricantes de VEs abrem e fecham suas portas tão rápido que não chegam nem a responder os e-mails enviados para obter mais informações sobre seus produtos.
Em 2007 a empresa EVT America, já conhecida por suas scooters elétricas fabricadas na Ásia, começou a oferecer uma versão própria de uma scooter elétrica de boa performance. A Z-20 possui um motor elétrico sem escovas de 2500 W com sistema elétrico de 60 Volts. O preço de lançamento da Z-20 foi de U$ 2.000 e preço de lista atual é U$ 2.400 (R$3.912) mais impostos. Comprei uma para ver se atendia minhas necessidades de transporte ou, pelo menos, parte delas.
Carregar as baterias não é difícil, basta plugar o carregador na tomada existente em frente da casa e esperar de 2 à 5 horas dependendo do nível de descarga das mesmas. Creio que a tarefa é mais difícil para quem vive em apartamento sem uma garagem já que pode não haver disponibilidade de uma tomada elétrica de 120 Volts. Aqui na Flórida não é comum, mas sei que na Califórnia pode-se encontrar estacionamentos reservados para VEs que contam com uma tomada elétrica. Com sorte, se o patrão permitir, pode-se recarregar as baterias durante aquelas mais de 8 horas em que o veículo fica parado no estacionamento da empresa. Enfim este processo custa somente alguns centavos por dia.
Para carregar as baterias da Z-20 depois de um dia de uso, ou 21 km no meu caso, gasto 1,22 kWh (17,2 km/kWh). Para obter este valor usei um equipamento chamado Kill-A-Watt que mede a quantidade de energia consumida por um determinado equipamento, no caso o carregador da Z-20. O preço do kWh por aqui é de U$0,125 o que nos leva a cerca de 15 centavos de dólar ou R$ 0,25 por dia ou R$ 0,01 por km rodado.
Comparando os dados da scooter com o que obtenho com meu carro convencional a gasolina podemos ver que a scooter é muitas vezes mais economica. O meu carro, operando nas mesmas condições, me dá cerca de 8,5 km/l. Com a gasolina a U$4,13 o galão (ou U$1,09/litro) os mesmos 21 km percorridos diariamente me custam R$4,39, ou seja, 17,5 vezes mais do que gasta a scooter! Estes números tendem a ficar cada dia mais favoráveis ao uso da scooter à medida em que o preço da gasolina aumenta nas bombas.
Com as chuvas, só me restou comprar outro VE
Tudo ia de vento em popa até que a temporada de chuvas começou aqui em Miami. A partir deste momento comecei a prestar mais atenção nos outros modelos de VE disponíves, aqueles que oferecem uma cabine para proteger-se da chuva e de outras intempéries. Os automóveis elétricos de razoável performance ainda não estão disponíveis no mercado americano. À medida em que escrevo estas linhas, os primeiros Teslas estão saindo da fábrica para os clientes. Obviamente que não quero e nem posso pagar U$ 100.000 por um VE, portanto o Tesla vai ter que esperar.
Uma outra categoria de VE disponível aqui nos EUA são os NEV. Os NEV (Neighborhood Electric Vehicle) são basicamente uma evolução dos carros de golf que ganharam mais equipamentos para poder trafegar nas ruas. O grande problema com estes veículos, também chamados LSV (Low Speed Vehicles), é que eles somente podem trafegar em ruas onde o limite máximo de velocidade é de 35 mph ou 56 km/h. Isto se deve ao fato de que os NEV não cumprem os requisitos mínimos em relação à resistência a colisões (legislação incentivada pelas grandes montadoras para vender mais SUVs). A maioria das ruas nas grandes cidade é de 40 ou 45 mph, ou seja, os NEV estão proibidos de trafegar por elas.
Como as leis americanas não impõe limites às motocicletas e estas podem possuir até 3 rodas, alguns fabricantes de VEs decidiram oferecer pequenos veículos de 3 rodas com uma carroceria e que podem ser operados em quaisquer ruas com exceção das rodovias onde a velocidade mínima é de 40 mph (64 km/h). É exatamente neste nicho de mercado que entrou a ZAP. Esta empresa oferece o modelo Xebra que é um veículo elétrico de 3 rodas fabricado na China. A performance é muito similar à da scooter da EVT com a diferença de que o Xebra possue uma cabine fechada. Duas opções estão disponíveis: o Xebra sedan com 4 portas, carroceria de fibra de vidro e lugar para 4 pessoas (eu diria 2 adultos e duas crianças) e o Xebra PK estilo pickup com carroceria de aço e lugar para dois adultos. O Xebra PK tem preço de lista de U$ 12.500 (R$ 20.375) mais impostos.
Encontrei um Xebra PK usado por U$ 8.000 em um concessionário da Zap em West Palm Beach que fica cerca de uma hora de carro aqui de Miami. É um modelo com a direção no lado direito e que foi usado em um programa piloto da UPS (empresa de entrega de encomendas aqui nos EUA) em dezembro do ano passado na Califórnia.
O Xebra PK tem autonomia de 25 milhas ou 40 km e velocidade máxima real de 38 mph ou 61 km/h. A operação de recarregar as baterias é ainda mais fácil pois o Xebra tem um carregador embarcado. O motor tem 5 kW de potência e as baterias tem capacidade de armazenar 4.75 kWh de energia, ou seja, uma carga completa do Xebra aqui custa em torno de R$1,00. Existe uma versão equipada com um painel solar de 150 Watts que pode extender a autonomia em algo como 8 km por dia ou fornecer uma carga completa em 5 dias.
Outra grande vantagem que os que residem nos EUA tem é a facilidade de comprar e registrar os veículos por aqui. O governo não se importa se a tração é elétrica ou à combustão e a documentação sai bem rápido. O imposto equivalente ao IPVA custa cerca de U$ 50 (R$ 80) para a maioria dos carros e uma pequena fração disto para as motocicletas. Os incentivos para elétricos e híbridos já não existem por conta do lobby fortíssimo aplicado pelas grandes montadoras, mas creio que este programa deve ser retomado logo. A fila de espera por um Toyota Prius híbrido já é de três meses.
Tenho usado os dois veículos elétricos (a Z-20 e o Xebra PK) todos os dias no meu trajeto diário até o escritório onde trabalho. Em dias onde a previsão do tempo indica 30% ou mais de probabilidade de chuvas opto pelo Xebra e nos dias de sol vou com a Z-20.
Acredito que a maioria das pessoas deve concordar, depois de ler o que escrevi acima, que o veículo elétrico é um excelente substituto para o automóvel convencional no uso urbano onde seja necessário um deslocamento diário de até 40 km. Além de mais econômico, o VE polui muito pouco e suas baterias são 99% recicláveis diminuindo assim o impacto que provocamos no meio-ambiente. Até mesmo nos EUA, onde a maior parte da energia gerada provém das termelétricas que usam carvão como combustível, é possível minimizar a poluição dos automóveis com a adoção dos elétricos já que a emissão dos gases pode ser melhor controlada nas chaminés de algumas poucas usinas do que nos escapamentos de milhões de carros.
Moral da história?
Caro amante ou entusiasta de veículos elétricos: tire seus projetos da gaveta e os coloque em prática hoje mesmo. Nunca existiu uma melhor hora para trabalhar com a tecnologia dos veículos elétricos do que agora. O mundo precisa do esforço de cada um de nós para vencer a crise energética e a degradação do meio-ambiente. Faça a sua parte. Faça já!
Nota: como referência para este artigo foi usada a cotação do dólar comercial do dia 09/06/2008: R$ 1,63/dólar americano.
[1]Alexandre Bueno, engenheiro com mestrado em engenharia automotiva (2004), reside e trabalha em Miami, Florida, Estados Unidos, desde 2006 (buenalexandre@gmail.com).
[2]Acesse informações sobre o triciclo militar convertido para elétrico:
- Apresentação do Alexandre Bueno no VE 2005 - 3° Seminário e Exposição de Veículos Elétricos sobre o triciclo militar convertido:
- http://groups.google.com.br/group/Veiculos-Eletricos/web/triciclo-eltrico-urbano.
- http://www.youtube.com/watch?v=OA9QsHn1TVw
- http://www.youtube.com/watch?v=C18Ir7STNNo
- http://www.youtube.com/watch?v=22zG_WqGGgM
- http://www.youtube.com/watch?v=MmjEKaOarVs


