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Salão do Automóvel de Paris e os veículos elétricos
O número de expositores é expressivo com relação à centena de outros presentes e representa um salto sobre os anos anteriores, indicando que alguma coisa profunda está acontecendo no que tange ao acionamento elétrico dos automóveis
13/11/08 - Jayme Buarque de Hollanda*

Entre 4 e 19 de outubro teve lugar o Salão do Automóvel de Paris de 2008, um dos mais importantes eventos do gênero do mundo, onde as montadoras expõem novos modelos e carros conceito que apresentam as tendências de evolução. Embora a imprensa em geral tenha falado sobre a presença de veículos elétricos híbridos (carros elétricos com um gerador a bordo), acompanhando a cobertura que chegou ao Brasil minha impressão foi a da pequena importância dada ao tema com notícias requentando mensagens dos anos anteriores. Aproveitei uma viagem a Paris para visitar o Salão e avaliar o assunto in loco.

Circuito dos veículos híbridos e elétricos
A tarefa foi facilitada por um folheto distribuído aos visitantes com o Circuito dos veículos híbridos e elétricos (veja a frente e o verso do folheto), pois os carros estavam espalhados em oito gigantescos pavilhões. Ao todo, o folheto lista 29 expositores com veículos elétricos além de um local para test-drives. O número de expositores é expressivo com relação à centena de expositores presentes. Esse número é um salto sobre os anos anteriores e mostra que alguma coisa profunda está acontecendo no que tange ao acionamento elétrico dos automóveis.

Os elétricos híbridos

Estavam presentes as diversas famílias de veículos elétricos que incluíam os híbridos puros, os híbridos plug-in (que além dos combustíveis líquidos, têm sistemas de baterias com capacidade para armazenar energia da rede), os elétricos a bateria e alguns exemplares de veículos a hidrogênio que utilizam células a combustível para gerar a energia elétrica usada no seu acionamento.

Havia diversos exemplares de híbridos, notando a contínua liderança da Toyota através do Prius. O automóvel, que se encontra na terceira geração, é fabricado há dez anos e é líder de economia e de vendas na categoria com mais de 300 mil unidades vendidas no ano passado. Continua a concentrar na característica "verde" do carro, mantendo a linha dos anos anteriores.

A Honda expunha a última versão do seu híbrido INSIGHT. A destacar a promessa na propaganda desta montadora de lançar, em março de 2009, um híbrido com preço mais acessível e voltado para um público amplo. Entender que os atuais modelos são voltados apenas para uma minoria.

Os elétricos a bateria

Dos veículos elétricos a bateria, estavam presentes duas famílias bem diferentes. De um lado possantes carros esportivos como o Tesla, com autonomia de 400 km e capazes de igualar e mesmo superar a performance da Ferrari e Lamborguini em algumas características como a aceleração usando um motor elétrico de apenas 50kg!

De outro lado, a maioria dos veículos elétricos a bateria eram quase todos compactos, muitos voltados para o transporte urbano de duas ou três pessoas ou para uso como utilitários de pequeno porte (carros de entrega e coleta de lixo, por exemplo). Nesta categoria estavam tanto fabricantes tradicionais - Mitsubishi, Hyundai, por exemplo - quanto um grande número de novos "players" que incluia a Courrège, fabricante de perfumes. Dentre os últimos, vale ressaltar o carro projetado pela italiana Pinafarina em associação com a Bolloré, importante fábrica francesa de baterias e de super-capacitores.

A novidade importante foi o VOLT da GM, prometido para chegar no mercado em 2011. Trata-se de um elétrico a bateria com extensor de autonomia cujo principal diferencial será a possibilidade de usar energia elétrica de rede (plug-in). A montadora no final do século passado oferecia o veículo elétrico mais avançado (EV-1) da época, abandonou a tecnologia e volta agora apostando pesado.

Bateria de íon de lítio

Um traço comum à maioria dos veículos elétricos expostos no salão foi o uso de baterias de íon de lítio. Nas conversas com os expositores, eles entendem que a performance física destas baterias (energia estocada e potência máxima por peso e vida útil) é compatível com as necessidades, mas que o preço deste componente é ainda relativamente elevado. Muitos expositores entendem que já está criado um ambiente para ampliar em muito as escalas de fabricação de baterias e que a queda de preços virá na seqüência com a introdução, inclusive, de novidades tecnológicas. Afinal os investimentos pesados no desenvolvimento deste importante componente só começaram há poucos anos e os parâmetros de desempenho estão longe de atingir os limites teóricos.

A célula a combustível

Nos salão havia alguns veículos de célula a combustível mas nenhum mostrava expectativa de novidade a curto ou médio prazos.

Tendências

Das minhas observações, acredito que 2009 mesmo com crise, ou até mesmo como conseqüência dela, será um ano de grande impulso na adoção dos veículos elétricos. Talvez o fato mais importante seja o veículo híbrido prometido pela Honda para consumidores em geral. Com um histórico de realizações no ramo e grande experiência acumulada no desenvolvimento e fabricação de híbridos (começou junto com a Toyota e já vendeu mais de cem mil), esta iniciativa levará as concorrentes, a começar pela Toyota, a apresentarem novidades que certamente têm escondidas na manga, dando início a um processo virtuoso que tenderá a tornar estes veículos um novo paradigma.

Faço um vaticínio de que as novas gerações de híbridos virão, muito em breve, equipadas para se tornarem "plug-in". Em síntese, o híbrido será vendido com um sistema de baterias mínimo que garanta seu funcionamento normal e o comprador aumentará o sistema de baterias em função de suas necessidades e conveniências da mesma forma como hoje compra capacidade extra de memória para a máquina fotográfica.

A maior hibridação, por sua vez, trará menores preços para as baterias e uma explosão de demanda por veículos pequenos de todos os tipos e melhor adaptados às necessidades urbanas.

Como última observação, lembro que, no final do século passado, Paris se preparou para receber veículos elétricos equipando estacionamentos, inclusive, com eletropostos. Na época, com os preços de petróleo muito baixos, o objetivo era reduzir a poluição urbana e o governo usou sua capacidade de compra (através da empresa elétrica e dos correios) para interessar as principais montadoras francesas fabricantes a desenvolverem veículos elétricos. O projeto teve um razoável avanço mas foi descontinuado por uma série de falhas no desenvolvimento.
Praça Vendôme
O interesse de Paris, cujo prefeito usa um Citroën elétrico, pelo tema renasce agora com o projeto Autolib em que 4.000 carros elétricos a bateria ficariam estacionados em locais estratégicos da cidade e à disposição de qualquer pessoa para transporte individual entre os pontos de estacionamento, pagando uma taxa por tempo de ocupação. É uma extensão de um programa que foi implantado na cidade com grande êxito para o aluguel de bicicletas.

* Diretor Geral do INEE - Instituto Nacional de Eficiência Energética e Presidente do Conselho Diretor da ABVE - Associação Brasileira do Veículo Elétrico

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