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Notícia
Motos à combustão poluem mais que automóveis, mas ainda assim mercado para moto elétrica é muito restrito
Entenda quais as grandes dificuldades de investimento e quais os benefícios de utilizar um VE
18/10/07 - Bruna Dias

Ao contrário do que comumente se acredita, as motos à combustão são protagonistas no aumento da poluição do ar e, em grande parte, muito mais que os automóveis. Com uma frota de carros e comerciais leves três vezes superior à motos, os veículos a duas rodas poluem quase duas vezes mais que todos os carros de passeio existentes no país. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes, a frota nacional de motos é de 6,3 milhões de unidade enquanto a de carros é em torno de 22 milhões.

No cenário de 1999, uma única moto emitia 30 vezes mais que um automóvel somente em monóxido de carbono. Quando uma moto - que carrega no máximo dois passageiros - emitia 23,5 g/km de CO, um automóvel - que suporta até cinco passageiros - emitia 0,7 g/km de CO, conforme explicou Daisy Lucid Duarte, Mestre em Engenharia Ambiental pela UERJ, durante palestra no 4º Seminário e Exposição de Veículos Elétricos (VE 2006).

Veículos
Fatores de emissão (g/km)
CO
HC
NOx
N° Máx. de
passageiros
Veículos a gasolina
(1999)
0,7
0,1
0,2
5
Veículos a álcool
(1999)
0,6
0,2
0,2
5
Veículos leves
PROCONVE 1999
2,0
0,3
0,6
5
Motocicletas
(1999)
23,5
2,0
0,135
2
Motocicletas
PROMOT 2004
13,0
3,0
0,3
2
Fonte: Palestra VE 2006

Atualmente, como informou o Valor Econômico em 17 de outubro, uma motocicleta à combustão emite 2,3 g/km de CO, enquanto um carro à gasolina faz 0,33 g/km de CO. Ou seja, uma moto de hoje ainda polui quase sete vezes mais que um carro. Houve redução com a implantação do Programa de Controle de Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares (Promot), um programa do Conselho Nacional do Meio Ambiente. No entanto, somente em 2009 o nível de emissão das motocicletas se igualará ao dos automóveis de hoje. Daqui a dois anos entra em vigor a terceira e mais rígida etapa o Promot, que exigirá que todas as motocicletas tenham catalisados e injeção, além de impor um limite nas emissões de 2 g/km de CO, 0,8 g/m de hidrocarbonetos e 0,15 de óxido de nitrogênio.

Limites de emissão para Ciclomotores, Motociclos e Similares, de acordo com as fases previstas pelo Promot
Veículos
Fase
Cilin-
dradas
CO
(g/km)
HC + NOx
(g/km)
HC
(g/km)
NOx
(g/km)
COc
(% vol)
Ciclo-
motores
Fase 1
2003
-
6,0
3,0
-
-
-
Fase 2
2005
-
1,0
1,2
-
-
-
Moto-
ciclos
e similares
Fase 1
2003
<= 250cc
13,0
-
3,00
0,30
6,00
> 250cc
-
4,50
Fase 2
2005
< 150cc
5,50
-
1,20
0,30
-
>= 150cc
-
1,0
-
Fase 3
2009
<150cc
2,0
-
0,80
0,15
-
>= 150cc
-
0,20
-
Fonte: Promot

De acordo com Daisy Lucid Duarte, apesar dos incentivos do Promot em reduzir as emissões das motocicletas à explosão, a implantação de motos elétricas auxiliaria consideravelmente na redução da emissão de poluentes.

"O Promot veio para melhorar qualidade do ar que respiramos. Porém, quando se associa o Promot às motos elétricas, temos ganhos de redução em todos os poluentes", afirmou a palestrante no último evento realizado pelo INEE.

Mesmo extremamente poluentes, motos têm grande público no Brasil

Apesar dos problemas citados acima, as motos à gasolina têm um público cativo no Brasil. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o acumulado de vendas de motos em todo o ano de 2006 foi de aproximadamente 1 milhão unidades. Já o acumulado de 2007, que abrange somente de janeiro a agosto deste ano, totaliza a venda de mais de 1,3 milhão de motos. E a tendência é de crescimento nas vendas.

O grande aumento na venda de motos também é sentido quando analisamos numa escala local. No Estado do Rio de Janeiro, durante todo o ano de 2006, foram vendidas pouco mais de 50 mil unidades. Somente nos oito primeiros meses deste ano, os dados são praticamente os mesmos em relação a todo o ano passado: cerca de 50 mil motos. O mesmo acontece em São Paulo. Em todo o ano de 2006, foram vendidas quase 340 mil motocicletas e de janeiro a agosto deste ano, o total foi de aproximadamente 280 mil unidades.

E a grande líder de vendas é a Honda, que deteve 60% do mercado fluminense em 2006 e que atualmente detém 63%. De acordo com o Guia Veículo de outubro de 2007, veiculado pelo Valor Econômico, o modelo 0km mais barato disponibilizado pela Honda é a moto Pop 100 97cc, no valor de R$ 4.250,00. Por outro lado, o modelo 0Km mais caro fornecimento pela montadora é a Gold Wing 1500/1800, no valor de R$ 101.753,00.

Então, por que adquirir uma moto elétrica?

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) fornece em seu site um perfil do comprador de motociclos. Os resultados não são surpreendentes, mas legitimam a posição daqueles que defendem o uso das motos elétricas.

Isso porque, segundo os dados de 2006, cerca de 80% dos compradores utilizam a moto para uso próprio, e a principal razão da compra, com 40%, é substituir o uso do ônibus ou do metrô. Além disso, 93% dos usuários usam a moto na cidade e 74% tem por finalidade a condução para trabalho ou escola, ou seja, a curtas distâncias.

A faixa etária dos compradores varia, com a maior parcela - cerca de 38% do total - correspondendo a usuários de 21 a 30 anos. E quase que o total de compradores eram pessoas físicas e 76% do sexo masculino. Portanto, o perfil de usuário que atualmente utiliza a moto à combustão se encaixa no perfil de usuário de moto elétrica. A demanda desses usuários não é grande em relação a autonomia que a motocicleta precisa percorrer durante o dia, já que realiza trajetos curtos e viagens não muito longas. Para Fernando Nigri, dirigente da E-COMOVE, o público está adequado para utilizar motos elétricas e afirma que a empresa recebe muitos interessados em VE's, mas na decisão de compra ainda prevalece o custo-benefício.

"Os nossos modelos de scooters têm um custo bem abaixo ao de uma moto à gasolina mesmo comparada com as populares do mercado, sem falar na manutenção simplificada que se torna praticamente inexistente. Mas somente após o test-drive é que os clientes se convencem que podem terscooters na versão elétrica com um ótimo desempenho", explicou Nigri.

Outras vantagens das motos elétricas são a ausência do barulho e da fumaça negra dos escapamentos, o que impede a poluição do ar e extingue os riscos de queimaduras. E é exatamente preocupadas com questões ambientais que muitas empresas estão renovando suas frotas de motos convencionais por motos elétricas.

"Principalmente as empresas de segurança pois não precisam levar as scooters para o abastecimento externo, além de que o funcionamento e o tipo de uso é muito agressivo para as motos convencionais, exigindo gastos com manutenção preventiva. As rondas em silêncio total tem sido um grande atrativo para as scooters elétricas", disse Nigri.

Com tantos fatores positivos, por que ainda não utilizamos moto elétrica em grande escala no Brasil?

O dirigente da E-COMOVE, revendedor da Motor-Z, empresa participante do Salão Duas Rodas 2007, que apresenta seus cinco novos modelos de scoorters elétricas para o próximo ano, afirmou que as grandes dificuldades de expansão do mercado de modos elétricas são a falta de incentivo fiscal e o valor das baterias. Pelo fato de não existir uma lei específica de isenção ou até mesmo de incentivo à importação de veículos elétricos, as motos elétricas pagam até mais que uma moto de 50cc (15% de imposto).

"Com relação à importação, a grande dificuldade é com relação ao IPI praticado no Brasil para as scooters elétricas (35% de imposto). Os incentivos ao uso de veículos elétricos por parte do governo contribuiriam para que o consumidor final tivesse uma facilidade na opção por um veículo elétrico", destacou Nigri.

As baterias mais potentes e com baixo peso, que possibilitariam maior autonomia dos veículos elétricos, ainda são muito caras como, por exemplo, as de Lithio-ion eLithio-polymer. Para a moto elétrica comercializada no Brasil é viável a bateria de chumbo-ácido especial de ciclagem profunda, composta por seis células de 2V que formam um monobloco de 12V.

Uma das soluções apresentadas pelo dirigente seria a redução dos incentivos fiscais, assim como uma parceria de empresas privadas, como foi feito pela Chilectra, permitindo que os clientes usem suas contas de energia elétrica para financiar as compras motos elétricas. Ele destacou, ainda, a importante participação de países como Brasil Índia e China no desenvolvimento de motos elétricas. "Por incrível que pareça, os países que mais têm preocupação no desenvolvimento de motos elétricas são os que buscam soluções de transporte com baixa ou nenhuma dependência do Petróleo. O Brasil optou pelo álcool como combustível para os meios de transportes individuais. A China e a Índia estão desenvolvendo carros, scooters e triciclos elétricos fornecendo, inclusive, através de contratos de produção fechada para os países desenvolvidos", exemplificou Nigri.

Estudo alerta para planejamento na introdução de motos elétricas no mercado

Com base na experiência chinesa ocorrida no final da década de 90, na qual o programa governamental de incentivo ao uso de motos e bicicletas elétricas resultou em problemas devido a falta de planejamento apropriado, uma equipe do Departamento de Eletrônica e Microeletrônica da Unicamp realizou um trabalho sobre os efeitos da introdução de motos elétricas no mercado nacional. Em 2005, por exemplo, já havia 22 milhões de motos elétricas na China e esperava-se um crescimento anual da ordem de 80% para os próximos seis anos.

"Embora o mercado brasileiro não possa ser comparado ao chinês, no que diz respeito ao volume, fica claro que há uma necessidade de se planejar a introdução de veículos elétricos de duas rodas, sob o risco de criarmos novos problemas, decorrentes de uma eventual utilização em alta escala de tais veículos", diz o estudo elaborado por Siqueira Dias, dentre outros participantes, que será apresentado no VE 2007.

Tomando como base a média entre o uso particular e o profissional, o estudo estabeleceu um cálculo das motos/bicicletas elétricas que fossem utilizadas por cerca de duas horas por dia, durante os dias úteis. Segundo o estudo, uma moto de porte médio, com autonomia de 50 km e velocidade máxima de 40 km/h, consome cerca de 2,7 kWh para andar durante uma hora. Como resultado, cada moto consome por mês, andando duas horas diárias durante 22 dias úteis do mês, 118,8 kWh.

Também foi feita uma projeção comparativa entre o crescimento do mercado de energia elétrica na região metropolitana de São Paulo (baseada na média verificada nos últimos cinco anos pela AES-Eletropaulo) com a variação percentual do aumento deste crescimento, que seria causada pela introdução de motos elétricas.

Gráfico

Se o número de VE's atingir os valores previstos na simulação, a carga adicional ligada à rede concessionária, ao fim de cinco anos de implantação, será maior do que 460 GWh, o que equivale ao consumo de uma cidade de cerca de 4 milhões de habitantes.

O estudo conclui que sem um planejamento adequado para este processo, a introdução de motos elétricas no mercado pode ser bastante problemática, mesmo sendo esta uma excelente alternativa na substituição das motocicletas movidas a gasolina.

"As vantagens financeiras oferecidas por estes veículos podem fazer com que a sua participação no mercado seja muito importante, com crescimentos anuais muito altos, gerando a necessidade de alocação dessa carga por estímulos tarifários nos horários de carga leve, para melhor aproveitamento do sistema elétrico e para evitar riscos de inadequação da rede de distribuição, pois a capacidade de crescimento da rede para fornecimento de energia pode ser rapidamente ultrapassada pela demanda criada pela nova carga introduzida no mercado", conclui o estudo.

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