Decisão de investir em transportes coletivos e desincentivar o uso de automóveis tem êxito em Lyon
Bondes, trólebus e integração dos sistemas de transporte com tarifas baixas estimularam população a deixar o carro
05/11/07 - Bruna Dias
Grandes extensões de engarrafamento e milhares de carros circulando pelas ruas não parecem ser a realidade vivida pelos moradores da cidade francesa de Lyon, que tem 1,3 milhão de habitantes e está situada a 500km de Paris. Como abordado na reportagem do Valor Econômico do dia 8 de outubro, a cidade passou por uma reestruturação drástica dos transportes públicos, com apoio de mais de dois terços da população, e que tinha como característica principal a redução do espaço para circulação de automóveis em detrimento dos equipamentos públicos de transporte.
Há exatos dez anos foi criado o Sindicato de Transportes Mistos de Lyon (Sytral), uma espécie de secretaria de transportes com orçamento próprio e alto nível de independência, que realizou a ruptura radical no sistema. O metrô parou de ser construído. As principais avenidas perderam 50% do seu espaço para modernos bondes elétricos. Os ônibus convencionais passaram a ser substituídos por trólebus, em faixas dedicadas exclusivamente a eles. Foram criados 17 estacionamentos gratuitos em pontos estratégicos ao longo das estações de metrô, bondes e ônibus. E, o mais importante, todo o sistema foi interligado permitindo ao usuário pagar uma única tarifa usando todos os meios de transporte.
Dados SYTRAL |
Metrô/ Funicular |
Tramways |
Ônibus térmicos/ Trólebus |
| Passageiros |
704 mil/dia / 13 mil/dia |
33,5 milhões/ano |
553 mil/dia |
| Quantidade |
178 vagões |
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859 / 110 |
| Extensão |
29,4 km / 1,2 km |
39,6 km |
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| Linhas |
4 |
3 |
96 / 7 |
| Velocidade |
16,6 a 31 km/h / 10 km/h |
15,35 a 38 km/h |
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| Estações |
42 / 5 |
59 |
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Hoje, um morador de Lyon paga apenas 47 euros para utilizar todos os meios de transporte da cidade por todo o mês, quantas vezes quiser. Para que isso seja possível, os recursos vêm de um sistema de financiamento eficiente, em que a maior parte das verbas não vem do poder público. São as empresas da cidade que pagam mais de 35% dessa conta, que já soma 1,5 bilhão de euros apenas em investimentos desde 1997. O poder público arca com 21% dos custos, assim como os passageiros da cidade. Uma parte do dinheiro também vem de financiamentos e de receitas com publicidade. Somente no ano passado, o Sytral arrecadou 224 milhões de euros.
E o projeto, chamado Plano de Deslocações Urbanas (
Plan de Déplacements Urbans, em francês) está conseguindo bons resultados. O número de carros nas principais avenidas da cidade caiu quase 50%. O transporte integrado levou desenvolvimento e crescimento urbano ordenado para áreas antes degradadas. Além disso, a população está trocando os carros particulares pelo transporte coletivo. Em 1995, 52% dos habitantes tinham o carro como principal meio de locomoção. Em 2006, o número caiu para 47%, enquanto a utilização do transporte público cresceu de 14,8% para 16,8%.
A rede de transporte de Lyon, a segunda maior rede de transportes coletivos da França, serve as 62 comunidade da Grande Lyon e é composta por 4 linhas de metrô, das quais uma é automática (linha D) e uma é crémaillère (linha C), 3 linhas de tramway, modelo reintroduzido em na cidade em 2001, mais de 100 linhas de ônibus (a motores térmicos) e trólebus (à propulsão elétrica), e 2 linhas de funicular. O tramway, com seu motor 100% elétrico, não emite qualquer tipo de poluição atmosférica, transporta até 200 passageiros e praticamente não emite ruídos sonoros.
Grand Lyon dá destaque ao transporte a pé e de bicicleta
Ainda há outras medidas bastante inovadoras para garantir um sistema de transporte eficiente e não poluente. Na Grande Lyon os habitantes são incentivados a andar de bicicleta e a pé. Há, por exemplo, um sistema de transporte escolas chamado
Pédibus (ônibus a pé, tradução livre) que estimula as crianças a irem para escola andando. Já são mais de 50 escolas que participam do projeto com aproximadamente 850 crianças. Elas vão caminhando para a escola, com a supervisão de voluntários, que passam nas "estações" das linhas para pegar os estudantes.
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Para aqueles que preferem a bicicleta, há um projeto para ampliar a rede de ciclovia em 150 km, passando dos atuais 230 km para 380 km, até 2010. Para fazer com que a locomoção por bicicletas seja um transporte seguro, mudanças como marcações do solo, controle dos automóveis em estacionamento, estipular limite de velocidade à 30 km/h, separar o espaço entre o modelo de transporte, as vias de circulação e o estacionamento, deverão ser implantadas. Além disso, a cada ano, desde 2004, são acrescentados mais 500 arcos para estacionamento das bicicletas, totalizando até o momento 2.700 arcos. Como mostra o gráfico abaixo, o número de bicicletas simplesmente duplicou entre abril de 2004 e abril de 2007, e a progressão é regular.

Clique na imagem para vê-la ampliada.
Desde maio de 2005, a Grande Lyon disponibiliza aos habitantes um parque de bicicletas em auto-serviço chamado
Vélo'v. O sistema conta hoje 3.000 bicicletas com 250 estações em Lyon e Villeurbanne. É possível usar o veículo de 30 minutos à 1 hora, de acordo com as variadas modalidades de assinatura. Em 2007, a terceira e última fase de implantação do projeto, haverá uma estrutura final de 4.000 bicicletas com 340 estações.